COZINHAS DE CURITIBA: MEMÓRIAS DE UM CHEF #3: O PESO DO QUILO E O SOL NO VALE
Em 2021, entrei na cozinha do Tomilho Cozinha Cotidiana, no bairro Batel, carregando uma mochila um pouco mais pesada. Não era só pelos utensílios, mas pelo título que o restaurante carregava: vencedor nacional do concurso "O Quilo é Nosso" no ano anterior. Era um lugar de comida cotidiana, mas com um selo de excelência para zelar. E eu, saindo da experiência do Família Fadanelli, chegava como cozinheiro líder. Mais do que uma mudança de emprego, era uma transição de posto. A cozinha era espaçosa, mas a equipe, enxuta. Eu, uma auxiliar super ágil, uma garde manger e o cara da grelha. O ritmo era ditado pelo movimento – sempre bom – e pelo gestor / dono. Ele chegava cedo, planejava o menu do dia e deixava alguns preparos adiantados. O resto? "É por conta de vocês". Era uma certa autonomia, mas com gosto de risco. A entrega precisava ser impecável, sempre. "Você tem três minutos para soltar a reposiçãodo buffet", ouvia-se vez ou outra. A pressão fazia parte do mobiliário.
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| Fonte: Instagram @tomilhocozinha 2021. |
Foi nesse cenário de alta rotatividade de panelas e de pratos que os primeiros – e mais evidentes – sinais de uma intolerância a lacticínios começaram a bater à minha porta. Ou melhor, ao meu corpo. As cólicas intestinais viraram uma sombra incômoda, uma contrapartida física ao ritmo acelerado da cozinha. Enquanto eu ajustava temperos e cuidava das reposições do buffet, meu corpo travava sua própria batalha silenciosa. Era uma ironia dura: cuidar da alimentação dos outros enquanto descobria uma limitação na minha. Nas raras pausas, eu dava uma volta pelo salão. Ver a apresentação do buffet, repor um prato, era também um respiro. Foi assim que conheci alguns clientes estrangeiros, assíduos, com quem eu gastava meu inglês enferrujado. Aqueles breves contatos eram janelas, lembranças de que aquela comida conectava pessoas.
Mas minha jornada no Tomilho começava muito antes disso. Naquela época, eu ainda morava no bairro de Santa Felicidade e encarava 10,2 km de bicicleta até o Batel com minha MTB, todos os dias. Era inverno. Saía no escuro e, por volta do Jardim Itália, a recompensa: parar por dois ou três minutinhos para ver o sol nascer atrás das antenas do bairro Pilarzinho, do outro lado do grande vale. Aquele momento de frio e silêncio, só eu e a cidade acordando, era um ritual de clareza antes da turbulência da cozinha. Mais tarde, me mudei para o Centro Cívico, e toda a minha mobilidade – geográfica e profissional – decolou. Mas essa já é uma história para outro capítulo.
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| Fonte: Arquivo pessoal. |
Trabalhei no Tomilho mais pelo horário e pelo aprendizado do que pelos rendimentos. Era um período de consolidação. Aprendendo a liderar com poucos recursos, a tomar decisões rápidas sob pressão e a entregar qualidade num formato (o buffet) que é um turbilhão de demandas. Aprendi, também, a escutar os sinais do meu corpo. A vida em cozinhas é assim: cansativa, intensa, cheia de camadas. Conheço gigantes que ficam 20, 30 anos no mesmo lugar, e os admiro profundamente. Minha estrada, porém, tem sido diferente. Gosto do ciclo de chegar, aprender, melhorar processos, entregar resultados e seguir para o próximo desafio. Cada lugar deixa um saber, um tempero na memória, e as vezes um amigo. O Tomilho me deixou o peso e o brilho de um prêmio nacional, a dureza de uma rotina que testa os limites e a paciência, e a imagem teimosa de um sol de inverno, vencendo as antenas no vale, prometendo um novo dia.




