MEMORIAS DE UM CHEF: COZINHAS DE CURITIBA #6: TIJOLO COZINHA CONTEMPORÂNEA
Existem restaurantes pelos quais passamos. E existem restaurantes que passam pela gente. O Tijolo foi um desses lugares. Em dezembro de 2021, eu estava encerrando uma passagem no Jardim Secreto Gastronomia, onde atuava como cozinheiro líder. Procurava minha primeira oportunidade como chefe de cozinha e, enquanto ela não aparecia, fazia alguns freelas pela cidade. Foi através da indicação de um colega que cheguei ao então Tijolo CWB. Naquele momento, a casa também vivia uma fase de mudanças. A proposta original, fortemente voltada à gastronomia vegana, começava a dividir espaço com novos pratos e diferentes proteínas. A identidade vegetal continuava ali, mas agora caminhava lado a lado com outras possibilidades. O espaço, por outro lado, permanecia praticamente o mesmo. E talvez essa seja uma das suas maiores qualidades. Escondido atrás de um portão na Rua São Francisco, o Tijolo sempre foi um refúgio improvável no Centro Histórico de Curitiba. Um corredor em estilo galeria conduz até um jardim protegido por uma antiga parreira. Lá dentro, um salão de pé direito alto, atmosfera quase rústica e muita história nas paredes. Pouca gente sabe, mas aquele espaço foi o ateliê do escultor curitibano Ricardo Tod, criador da Fonte da Memória, obra mais conhecida pelos curitibanos como o famoso Cavalo Babão. Ainda hoje é possível ver no restaurante um dos esboços originais da escultura desenhado a lápis na parede, protegido por vidro, além das antigas roldanas utilizadas pelo artista em seus trabalhos. O restaurante fazia parte do complexo SFco 179, um espaço que mistura gastronomia, arte, arquitetura e eventos. No mesmo endereço, um andar superior recebia exposições e encontros dos mais variados tipos. Nos fundos, funcionava o Royalty Coffee com outros dois proprietários. SFco 179 e Tijolo administrados pelos dois irmãos que apostaram naquele projeto e, mais tarde, também apostariam em mim.
![]() |
| Arquivo pessoal. Foto: DV Art, 2026. |
Assumi oficialmente a cozinha em janeiro de 2022. Foi minha primeira experiência como chefe de cozinha. Muito trabalho. Cardápio reestruturado. Contratações. Ajustes de processo. Organização. Uma cozinha pequena, recursos limitados e um movimento que crescia semana após semana. A verdade é que a casa começou a lotar. E junto com o crescimento vieram os desafios. Em meados de agosto, o desgaste acumulado dos turnos dobrados já cobrava seu preço. Decidi encerrar aquele primeiro ciclo e partir para outros projetos, que já contei, e ainda vou contar, em outras postagens desta série. Mas algumas coisas ficaram. Receitas. Empratamentos. Processos. Ideias. Mesmo com mudanças naturais ao longo dos anos, partes do meu trabalho continuaram ali. Chefs vieram. Chefs saíram. E o Tijolo seguiu em frente. Até que, em janeiro de 2025, chegou um convite para voltar. Quando retornei, encontrei uma operação completamente diferente. A cozinha havia quase triplicado de tamanho, a equipe era outra, os desafios também. Reestruturamos processos, ajustamos cardápios, treinamos pessoas e trabalhamos muito. Horas e horas. Pouco a pouco, a cozinha voltou aos trilhos. O padrão subiu. Participamos de uma edição do Gastromotiva. O movimento aumentou. E, naquele momento de transformação, o Tijolo CWB passou a se chamar Tijolo Cozinha Contemporânea. O nome mudou. A essência continuava a mesma. Depois de oito meses, deixei novamente a operação para seguir novos caminhos. Mas a história ainda não tinha terminado.
![]() |
| Fonte: Risoto alla milanese com tiras de alcatra e demi glace - DV Art, 2026. |
Seis meses depois, veio mais um convite. E eu voltei pela terceira vez. Só que agora como chefe executivo. Durante minha ausência, muita coisa havia acontecido. Novas lideranças passaram pela cozinha, a operação viveu momentos de instabilidade e reconstrução. Quando retornei, encontrei mais um desafio pela frente. Reformulamos o cardápio. Criamos pratos para compartilhar. Passamos a trabalhar constantemente com novidades no menu executivo. Trouxemos referências da cultura gastronômica paranaense para o centro do projeto. Barreado em diferentes interpretações. Galeto grelhado com polenta. Risoto de abóbora. Queijo colonial em diferentes pratos. Peixe frito em pão de fermentação natural. Referências tropeiras. Ingredientes, histórias e sabores que fazem parte da identidade do nosso estado. Vieram também os festivais. Participamos pela primeira vez do Festival Bom Gourmet. Não trouxemos troféus para casa, mas entregamos qualidade todos os dias e deixamos uma excelente impressão para quem passou pela nossa mesa. Depois veio o Festival da Parmegiana. E ali o resultado apareceu de forma impressionante. Vendemos muito. Muito mesmo. O restaurante ganhou visibilidade, movimento e notoriedade. Durante esse período, tive a oportunidade de representar a casa em uma entrada ao vivo na Paraná TV e também de participar de um momento simbólico: a sanção da lei municipal que incluiu oficialmente o Festival da Parmegiana no calendário de eventos da cidade. O ato aconteceu dentro do próprio restaurante, com a presença do prefeito Eduardo Pimentel e sua comitiva.
![]() |
| Fonte: Curitiba Honesta. Festival do Parmegiana, 2026. |
Foi uma fase intensa. E o crescimento era visível. Melhoramos tempos de execução. Aumentamos a qualidade. Reduzimos desperdícios. O faturamento cresceu. A casa cresceu. Até que veio a notícia. O Tijolo foi vendido para os proprietários do Royalty Coffee, que também expandiam suas operações naquele momento. E agora, 28 de junho de 2026, o último serviço foi encerrado. Talvez seja o fim do Tijolo. Talvez seja apenas mais uma transformação. Mas para mim, independentemente do que aconteça depois, aquele ciclo se encerrou ali. Foi ali que deixei de ser apenas operacional e passei a pensar como gestor. Foi ali que evoluí de chef para chefe executivo. Foi ali que aprendi a conduzir eventos, casamentos, festivais, equipes maiores e operações mais complexas. Foi ali que assinei cardápios, controlei custos, formei profissionais e participei de algumas das entregas mais importantes da minha carreira. E foi ali que, por três vezes, encontrei cozinhas que precisavam ser reorganizadas e reconstruídas.
Três vezes.
Dá até para pedir música no Fantástico.
Tenho profundo respeito por todos que passaram por aquela cozinha e contribuíram para sua história. Mas também reconheço a importância da minha própria trajetória dentro dela. Ela foi marcante. E eu sei disso porque os resultados ficaram. Ao Tijolo, minha gratidão. E aos dois irmãos que acreditaram no meu potencial desde o começo, meu muito obrigado. Alguns restaurantes servem refeições. Outros servem aprendizado. O Tijolo me serviu os dois. E talvez seja justamente por isso que, quando as luzes da cozinha se apagam pela última vez, o que permanece não são os pratos. São as histórias. E essa foi uma das mais importantes da minha carreira.





